Comentário Bíblico

Comentário: Jeremias – Introdução e Lição 01 – Pastor Moises Sanches Junior

INTRODUÇÃO

Nova lição, novo trimestre, novos problemas velhos.

Sim, novos problemas velhos é a melhor forma que encontrei pra descrever a pessoa, a missão, a história e a aceitação deste que sem dúvida é o maior dos profetas do Velho Testamento, e cuja mensagem de advertência muito se assemelha ao contexto que existiria antes da segunda vinda de Cristo.

Sempre apreciei observar certas situações recorrentes, que às vezes parecem coincidência, mas estão longe de ser, afinal, a Bíblia não é um livro exaustivo na descrição da história, mas um texto com uma escolha arbitrária e seletiva dos eventos, o que me leva a crer que, o que permaneceu ali relatado e guardado para a leitura futura, não foi acidental, mas meticulosamente escolhido e orientado por Deus.

Apenas como exemplos, você já percebeu que o primeiro e o último livro da Bíblia (Gênesis e o Evangelho de João) começam exatamente com a mesma frase – no Princípio? Já reparou que a Bíblia apresenta 3 grandes momentos de intervenção de Deus na História humana e todos estão conectados com similaridades:

Corrupção

Profecia

Missão de Alerta

Intervenção

Dias de Noé

Dilúvio

120 anos

Dilúvio/Arca

Plenitude dos Tempos – falta de fé

Messias

Voz no Deserto

Cruz/Ressurreição

Como nos Dias de Noé

Amor de quase todos esfriará

Joel 2/Mateus 24:13 e 14

Pragas/2a. Vinda

Já percebeu que os grandes libertadores ou reformadores listados na Bíblia tiveram um tempo de preparo, de desconstrução/reconstrução no deserto (literal ou simbólico) e posteriormente, missão (Abraão, José, Moisés, Elias, Daniel, Paulo)?

Já reparou que é recorrente entre os profetas cuja missão indicava destruição, reforma ou embate com os poderes instituídos(sacerdotes, reis, liderança local, etc.), tinham uma tendência à não aceitar o convite, com desculpas oriundas de sentimentos como medo, despreparo, incapacidade ou timidez ? (Moisés, Elias, Isaías, Jeremias, Ellen White). E que a resposta de Deus à todos eles foi de amparo, purificação, advertência sobre a responsabilidade, poder e auxílio?

Por sua vez, os grandes evangelistas bíblicos eram destemidos, intrépidos e incansáveis (Paulo, João Batista, Jesus)

Quando sugeri que um olhar ao ministério de Jeremias seja o de novos problemas velhos, é que, de fato, deveríamos estudar sua história fazendo o contraponto com a realidade do momento em que vivemos, e os acontecimentos que divisamos como remanescente de Deus tais como:

  • o preparo necessário para permanecer fiéis no “cativeiro” que virá (a grande tribulação),

  • a comunhão necessária para fazer frente ao embate interno e externo resultantes do sincretismo religioso de nosso tempo (Selo distintivo de Deus, o espiritualismo moderno, a solidariedade e unidade ecumênica para a paz),

  • a necessidade de arrependimento e reforma prévios à chuva serôdia e sacudidura,

  • a comunhão necessária para suportar a angústia e a pressão

  • o conhecimento da Palavra de Deus que permita a o discernimento entre a verdade e o erro, e a manutenção da verdade em tempos de “cativeiro” e falta de acesso ao texto.

  • o preparo pessoal que fundamente a missão daqueles que forem chamados a pregar no tempo imediatamente anterior ao encerramento da graça, em condições de hostilidade e perseguição religiosa permanecendo nas grandes cidades (o, vida e pessoa do profeta Jeremias, nos permite a graetismo religioso de nosso tempos que divisamos como remanescente de Jud”Jerusaléns” modernas).

Um olhar profundo sobre a missão, vida e pessoa do profeta Jeremias, e uma compreensão clara do contexto em que ele viveu, trará, sem sombra de dúvida neste trimestre, uma série de comparativos úteis para nosso tempo. Igualmente, uma visão particularizada da condição do povo de Israel, do comportamento do mundo que o cercava, da contemporização com o erro, e da recepção a mensagem do profeta, nos possibilitarão entender algumas reações do remanescente à verdade presente (Espírito de Profecia) e ao testemunho profético bíblico (comportamento laodiceano).

Não que a história seja cíclica ou que acreditemos em um aprisionamento fechado do destino, mas antes sim, que o ser humano parece gostar de repetir os mesmo erros.

Já vai alto o tempo de aprendermos com os erros do passado.

LIÇÃO 1

Como professor, tenho por hábito sempre olhar primeiro para os objetivos previstos para a semana, para a partir deles, direcionar o estudo da lição. Isto evita perder o foco na verdade central.

Também tento imaginar por que fora escolhido aquele título entre tantos possíveis, e o verso pra memorizar em meio a tantos outros.

A partir disto, temos a essência do estudo.

Temos 3 objetivos para esta lição:

O primeiro – o que precisamos conhecer: A experiência do chamado de Jeremias, reconhecendo que possivelmente sua relutância em aceitar o chamado de Deus foi o que mais o tornou qualificado para a tarefa.

Se entendermos bem as circunstâncias de seu chamado: Sua pouca idade, sua linhagem interiorana, vaticinada pela exclusão dos dias de Salomão, o contexto de depravação israelita, e questão temática a ser abordada em seu ministério, parece quase natural ele imaginar que Jeremias seria a última escolha que Deus deveria fazer para tal missão.

Sua humildade, resignação e coragem de expor a Deus seus medos, descrevem sua sensibilidade e potencial para ser usado pelo mesmo Deus na missão.

O segundo – o conhecimento da experiência do chamado de Jeremias, nos levará a sentir que: A Deus lida ternamente com os sentimentos de incapacidade das pessoas diante das tarefas que Ele apresenta a elas.

Sempre ouvi dizer uma frase, que virou lenda urbana, que reza mais ou menos assim:

Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos pra missão.

Embora eu não discorde da segunda parte da frase, tenho sérias dúvidas quanto à primeira.

Parece que Deus chama pessoas que tenham os talentos e os pré-requisitos necessários à missão, permite-lhes a decisão de aceitar ou não o chamado, e, uma vez tendo aceito, inicia uma escola de capacitação que potencializa o que o escolhido já traz em seu Background.

Jeremias fora escolhido e preparado desde o ventre materno. Seu contexto, educação, lugar, e tudo o mais, deram-lhe um conjunto de ferramentas necessárias à missão, porém, a purificação, unção e capacitação de Deus seriam necessárias a finalização do “Treinamento” do profeta. (Assim foi com Moisés, Elias, Eliseu, José, João Batista e com o próprio Jesus). A forma terna com que Deus lidou com a insegurança do jovem Jeremias, o ato de colocar na boca do profeta SUAS palavras, completou o que os anos de educação na casa sacerdotal lhe havia ensinado.

Esta condição nos faz sentir que pra cada um de nós existe uma missão, e pra cada um de nossos medos, tem um Deus que transmite segurança.

O terceiro e último objetivo da semana – o que precisamos fazer como resultado deste conhecimento e sentimento é: Prestar mais atenção ao chamado de Deus, e deixar que Ele nos capacite pra fazer Sua vontade.

Achei interessante o termo “prestar atenção”. Às vezes podemos ter a sensação de que Deus não nos chamou pra nada, e que não sobrou parte na missão pra nós. Se você se sente assim, em primeiro lugar, ore pra que Deus te abra os olhos pra enxergar a missão, ou então que ele transforme a lição em uma “baita” pedra e que você acerte o “bico do dedão” nela pra ver se percebe. Muitas vezes, parece que essa é a única alternativa pra descobrirmos nosso pedacinho na missão. Se você está se sentindo assim, ore a Deus e peça por isso a Ele. Agora, cuidado, “Ele costuma responder”.

E o mais fantástico é que o chamado sempre virá acompanhado de um Kit de capacitação e com as ferramentas para a execução da missão. E para todos os dias de missão, Ele garante a presença do Espirito Santo ao seu lado.

Sobre o verso central, quatro importantes verdades:

  1. Quando – Antes que Eu te formasse, antes que você viesse ao mundo – Deus planeja com antecedência e conhece o fim desde o princípio, por isso, podemos confiar

  2. Quem – Eu te formei, Eu te conheço – Deus não se envolve, Ele se compromete, “põe a mão na massa”, e sabe bem o que faz – por isso podemos acreditar

  3. Como – Eu te consagrei – Deus não diz “se vira”, Ele dá todas as condições, por isso podemos Aceitar

  4. Para que – profeta às nações – Deus não me lança a deriva, ele diz exatamente o que, onde e para quem, por isso podemos IR.

O PROFETA

O Nome

Apesar de incerto, o significado do Nome do Profeta parece apontar para algo semelhante à “O Senhor Lança” ou “O Senhor Estabelece” em virtude das duas partes que compõem seu nome: Yirme – interpretada como estabelece, lança; e Yah ou Yahu, que significa Yahweh.

A Personalidade

O profeta se demonstra uma pessoa bastante sensível, que ao mesmo tempo que apresenta sua mensagem de advertência ao povo, se permite revelar como alguém que sente, vivencia e sofre profundamente com o povo, pelo povo e principalmente, pela antecipação do evidente resultado de insucesso de sua mensagem.

Um jovem tímido e retraído, que deixa transparecer conflitos íntimos e dilemas pessoais em seu texto, mas que guarda uma fé que lhe permite, pelo poder divino, uma coragem inigualável para suportar os sofrimentos resultantes de seu ministério.

Um ser humano como a gente, que escreve para pecadores como nós, que sofre os dramas de tentar mudar seu contexto, e que sofre toda vez que percebe que a insistência de seus irmãos em rejeitar os apelos de Deus.

Em certo sentido, aprendemos mais com a forma transparente como o profeta partilha sua vida e experiência religiosa, do que com sua própria mensagem.

O lugar e origem

Jeremias era de Anatote, ao nordeste de Jerusalém. De linhagem sacerdotal (filho de Hilquias), provavelmente da descendência de Eli, e da linhagem de Abiatar, que Salomão retirou do serviço de sumo sacerdote (I Rs. 2:26).

O tempo

O Chamado ao ministério ocorre entre 627/626 a.C (13o. Ano de reinado de Josias) e se extende até ao tempo de Zedequias (586 a.C), quando, após a captura do rei, queima da cidade, e o assassinado de Gedalias, se vê forçado a fugir para o Egito com um remanescente dos judeus (Jr. 43).

O ministério longo, de mais de 4 décadas, fez de Jeremias um profeta que conviveu provavelmente com vários profetas como Sofonias, Daniel, Ezequiel, Naum, Obadias, Miqueias e Habacuque.

Sua Temática e Mensagem

Numa mistura bastante equilibrada de profecia, história e biografias, o texto de Jeremias descreve a depravação, decadência e degeneração acelerada, moral e política, do povo judeu de seus dias. Sua narrativa evidência a surdez de uma nação aos apelos de amor de Seu Deus.

Sob o ponto de vista de reforma, sua mensagem é uma advertência ao abandono de uma religião superficial, resgate da pureza da fé e doutrina em um ambiente de corrupção e sincretismo, fugir de alianças com outros povos, e aceitar o jugo Babilônico, reconhecendo o governo, sem rebeldia ou revolta como forma de prevenir a ruína da nação judaica.

Como promessa e esperança, a aceitação das admoestações de Deus e sua consequente obediência, reconduziria o povo a unificação, sendo reunidas em um só povo de Deus e o Ungido(Renovo de justiça – raiz de Davi) seria seu rei.

Seu sofrimento

Sob constante ameaça, à Jeremias caberiam muito apropriadamente as palavras de Paulo como sofredor pelo evangelho. Preso diversas vezes, pelo seu povo e pelas invasões babilônicas, fora libertado e protegido pela providência divina.

Num ambiente hostil, renegado por seu povo, ameaçado de morte, traído e preso por seu povo, curiosamente, quando Nabucodonosor lhe concede a opção de escolher ir para a Babilônia ou continuar na Palestina, o profeta escolhe permanecer entre os seus e continuar a missão. (“Para mim, o viver é Yahweh/Cristo e o morrer é lucro” – uma boa adaptação para seu contexto)

O Livro

A maior parte do livro tem como autor direto o próprio profeta, embora admita-se que seu secretário de confiança – Baruque, e consequente redator do texto, possa ter reunido, editado e preservado o material presente no livro, bem como contribuído com as narrativas biográficas ali presentes.

O livro surge em razão de uma ordem de Deus (Jer. 36:1 e 2) para que o profeta escreva o conteúdo de sua pregação, e isto ocorre no 4o. Ano do reinado de Jeoaquim, rei de Judá (604 a.C).

Jeremias ditou a mensagem, Baruque as escreveu em um pergaminho, e recebe a dura e perigosa tarefa de mantê-las e lê-las ao povo hebreu.

Só pra entender o ambiente hostil, quando Jedudi, um dos servos do Rei Jeoaquim, leu o livro para o rei, possuído de ira, o rei cortou o livro com um canivete e o lançou no fogo (Jer. 36:20-23), e Baruque teve que reescrever o texto.

As Credenciais

Jeremias é convidado a falar não de si mesmo, mas Em Nome do Senhor.

A Palavra vem do Senhor, em primeiro lugar para o próprio profeta, e, quando por este é aceita, passa a ser PALAVRA VIVA às nações.

A maior credencial de Jeremias era poder apresentar A PALAVRA, vivendo, a Palavra. Esse é o sentido de poder do TESTEMUNHO.

Sempre apreciei o “Bom Humor” de Deus, e me entendam bem, Humor não é ser palhaço, mas é escolher bem a forma, o modo de suscitar a atenção de seu ouvinte. As parábolas e metáforas do velho e novo testamento mostram essa “Mente Brilhante” do Divino Deus em nos provocar a pensar.

Trocadilhos como o petros(pedrinha) e a Rocha que é Cristo no diálogo com Pedro, o uso de lendas urbanas como a de Rico e Lázaro para mostrar a ironia do orgulho, ou o trocadilho da “vara de amendoeira” de Jr. 1:11-12, são apenas exemplos da imensa Sabedoria em “professorar deste Deus que ensina seu povo.

De forma precisa e cristalina, Deus utiliza de um símbolo conhecido da Palestina – a Amendoeira – a primeira árvore a florescer (despertar, acordar) na primavera em Janeiro. Daí seu nome – shaqed, do radical shaqad – que significa estar desperto. No verso 12, após a resposta do profeta dizendo a Deus o que estava vendo, Deus usa o mesmo verbo – shaqad – para dizer que vigia e vela, ou que está desperto e atento.

O trocadilho se daria assim para a pergunta feita a Jeremias:

DEUS – O que você vê?

O PROFETA – Vejo a vara de uma árvore vigilante (amendoeira) ….

DEUS – Viste bem, por que estou vigilante sobre Minha palavra para cumpri-la!

Ou então:

DEUS – O que você vê?

O PROFETA – Vejo a vara de uma árvore veladora (sentinela) …

DEUS – Viste bem, por que Eu estou velando sobre a Minha Palavra para cumpri-la.

Duas certezas nascem deste jogo de palavras:

Deus está pronto a ser o primeiro, no início da primavera, a conceder bênçãos ao seu povo, e fazê-lo florescer, se este estiver disposto a andar em Seus caminhos.

Mas é igualmente verdadeiro, que o mesmo Deus fará cumprir completamente suas advertências de juízo caso seu povo negligencie Sua Palavra.

Neste contexto, nosso aprendizado deve ser o de não repetir os erros do passado, e aceitarmos a missão que nos foi confiada, na esperança de que o prêmio da soberana vocação nos espera ao fim da jornada.

Que Deus nos abençoe neste trimestre durante esse passeio com o profeta Jeremias pelas ruas e estradas de Jerusalém e Judá.

Por: Pastor Moises Sanches Junior

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